Aos doze anos meu pai foi escolhido para ser o padre da família. Dos cinco filhos, todos homens, um seria economista, o outro coronel do exército, o outro aviador, meu pai o padre e o caçula um eterno mimado. E lá foi ele para o seminário. Herman Hesse descreveria melhor o que ele passou. Até que um dia, dois anos passados, numa das cartas lidas e censuradas antes pelos padres, meu pai teve a idéia de mandar um santinho para a minha avó. No verso, à lapis, bem fraquinho escreveu: quero ir embora daqui. Minha avó severa leu, e milagre dos milagres, acatou a vontade dele. Daí, dessa experiência de vida vem toda uma contensão, uma repressão de sentimentos que meu pai carregou para o resto da vida.
Já minha mãe era a caçula de cinco irmãs e um irmão. Foi criada num caldo à la Nelson Rodrigues. Conseguia tudo que queria. Naquele tempo, o que ela queria era se formar normalista, com aquele uniforme dos anos dourados. E conseguiu. Teve o baile de formatura igualzinho ao da mini-série. Queria ser pianista, e conseguiu. Apesar de toda escassez daquela época. E por isso mesmo, cercada de invejas e ciúmes. E aquelas brigas histéricas que dariam roteiros e mais roteiros de filmes pós era embrafilme.
De tudo isso resultou que eu nasci meio seminarista e meio tati quebra barraco. Quem me vê contida, calada, não imagina que de uma hora prá outra eu rodo a baiana de uma forma incontrolável e boto todos os bichos prá fora, causando um estrago irreversível. É verdade. Eu mesma custo a acreditar. Foi o que aconteceu sexta-feira. Eu falei tudo, gritei o que não devia. Saiu. Agora agüenta a seminarista se auto-flagelando.
Escrito por
Cé
às
12h59
[ ]
[ envie
esta mensagem ]
|