As aulas recomeçaram junto com a greve do metrô. Logo no segundo dia a cidade deu nó. Eu sai de casa para fazer um percurso que leva uns dez minutos e levei quarenta e cinco minutos, de carro. Pior foi que pude constatar o quanto sou uma louca irreversível. Logo na primeira esquina me veio a idéia de voltar prá casa, mas toda esquina que eu dobrava a situação era pior. Em vez de voltar eu ía prá mais longe de casa, da escola de tudo. Quando eu tinha a opção entre duas ruas, eu sempre escolhia a pior, a mais entupida. Fora isso, minha cabeça, muito chegada às analogias, comparava o episódio com a minha própria vida. Um tipo de tortura habitual à quem estudou psicologia e tem mania de psicologizar tudo. E fui, desesperadamente querendo voltar para casa, escolhendo as ruas mais entupidas e ficando cada vez mais longe. A escolha da rua errada vinha sempre no último segundo: prá cá ou prá lá? Pumba, caminho errado de novo. E lá dentro da cabeça: tá vendo, burra? E assim, nesse estrago mental, cheguei na escola uns quarenta e cinco minutos atrasada, sendo que na verdade eu queria ter voltado para casa. O professor, fria e calculadamente anunciou que daria aula até às dez e meia da noite. Eu quis chorar e ao mesmo tempo me auto-flagelar, mas esperei. Esperei um tempo, saí da sala, levei falta, levei um olhar reprovador e voltei prá casa. Voltei num estado de exaustão. Fui salva pela novela das oito. Obrigada Gilberto Braga.
Escrito por
Cé
às
10h25
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